NOSSA VOZ,
NOSSAS ONDAS,
NOSSO FUTURO
NOSSA VOZ,
NOSSAS ONDAS,
NOSSO FUTURO
Em 2012, no marco da Conferência Rio+20, a comunidade do surf brasileira deu um passo histórico ao lançar a Carta de Responsabilidades dos Surfistas — Surf 21, uma iniciativa do Instituto Ecosurf, articulada por meio do Fórum Brasileiro de Surf e Sustentabilidade (FBSS).
Fruto de uma ampla escuta nacional, a Carta estabeleceu 21 compromissos em quatro eixos: Cultura Surf e Consumo, Surf e Educação Ambiental, Protagonismo dos Surfistas e Surf e Gestão Costeira.
Mais de uma década depois, diante da urgência climática que marca a COP30, em Belém (PA), o surf brasileiro resgata o espírito da Carta Surf 21 para elevar novamente a sua voz. Se antes o foco estava em ações individuais e coletivas, agora o movimento exige responsabilidade política e ação efetiva imediata na agenda climática local e global.
Entre 2024 e 2025, o Instituto Ecosurf conduziu a pesquisa Raio-X Ecosurf, um levantamento nacional inédito sobre as percepções e atitudes de surfistas e esportistas do mar diante das mudanças climáticas, da poluição plástica e da degradação das zonas costeiras brasileiras. Mais do que uma coleta de dados, o Raio-X Ecosurf consolidou-se como um exercício de análise perceptiva e observação crítica, transformando as vivências cotidianas de quem está no mar em evidências concretas sobre os efeitos da crise ambiental nos ecossistemas de surf.
Com mais de 500 respostas válidas, vindas de 19 estados e mais de 90 municípios, o levantamento traça um retrato inédito da cultura do surf brasileiro e revela seu potencial de mobilização socioambiental. A pesquisa integra a campanha independente, #SurfNaCOP30, em parceria com a Alternativa Terrazul e Federação Paraense de Surf (FEPASURF), e seus resultados serviram de base para a construção deste manifesto, que tem por objetivo ser a expressão do sentimento e das demandas da comunidade brasileira do surf e reafirmar o papel necessário do surf, como cultura, esporte e plataforma de engajamento e conscientização para proteção do oceano e justiça climática global.
MANIFESTO DO SURF PELO CLIMA
E PELO FUTURO DO OCEANO
Inspirado pela Carta da Terra, pela Carta de Responsabilidades dos Surfistas - Surf 21, pela Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030), pela Década da Restauração dos Ecossistemas e alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Nós, da comunidade global do surf, somos cidadãos, esportistas, artistas, atletas, empresários, líderes comunitários, amadores e profissionais, de todas as áreas, idades e latitudes, conectados pelas ondas do mundo. Nossa Casa é o Mar. O Oceano é o coração e pulmão do planeta.
Hoje, ampliamos a nossa voz, não apenas por nós, mas pela própria força vital do planeta.
Nós também somos os sensores da atual crise ambiental. Sentimos o aquecimento global, literalmente na pele, e o percebemos acontecer dia após dia com a erosão costeira, na poluição dos mares pelo plástico e outros estressores ecossistêmicos, na acidificação das águas, no aumento da intensidade das tempestades e do nível do mar e na silenciosa agonia dos ecossistemas marinhos.
O Oceano, que muitos chamam de mar, nós chamamos de lar, um aliado climático estratégico. Mas ele está entrando em um estado de desequilíbrio profundo, e seus sinais de colapso ecoam em cada onda que quebra. Não se trata de uma ameaça futura; é uma crise presente e evitável.
Os líderes mundiais discutem a crise ambiental em salas; nós já sentimos diariamente no mar.
DO ALERTA À AGONIA: O ENGANO DO PASSADO
Durante décadas, avisamos e fomos avisados. A ciência, os povos costeiros no maretório, a comunidade do surf e a própria natureza anunciaram os riscos de um modelo de desenvolvimento baseado na extração sem fim e na indiferença.
O surf emergiu como um símbolo de liberdade, mas foi capturado por um modelo de consumo insustentável que, ironicamente, destrói o ambiente de sua própria cultura. Os mares agora agonizam sob o peso da poluição plástica sistêmica, da intensificação do aquecimento global e do colapso da biodiversidade marinha.
MAIORIDADE POLÍTICA: O SURF É UM MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA
Em 2025, na COP30, a comunidade do surf declara sua maioridade política. Deixamos de ser apenas um esporte para muitos e ressurgimos como cultura ancestral para nos reafirmar como um Movimento Global Comunitário, socioambiental e cultural. Somos um segmento relevante da sociedade, de resistência dos povos do mar e de observadores críticos que exigem ação imediata frente à emergência climática.
O movimento #SurfNaCOP30 é testemunho desse despertar. Centenas de surfistas e cidadãos do mar expressaram, através de escutas ativas, sentimentos de resignação, compromisso e visão de futuro, revelando uma percepção clara: a regeneração planetária depende de nós e através de nós.
NOSSO ULTIMATO CLIMÁTICO: EXIGÊNCIAS PARA A COP30
Se o presente é o ponto de virada, o futuro será o reflexo das nossas escolhas agora. O Manifesto do Surf pelo Clima e pelo Oceano nasce como um pacto intergeracional - um chamado à responsabilidade solidária e à reconciliação com o planeta azul que nos sustenta.
Guiados pelos princípios balizadores da Carta da Terra, da Carta das Responsabilidades dos Surfistas (Surf 21) e pela Década da Ciência Oceânica, e pela Década da Restauração dos Ecossistemas, e alinhados à Agenda 2030, declaramos as seguintes exigências:
PILAR 1 - PROTEÇÃO, RESTAURAÇÃO E FINANCIAMENTO
EXIGIMOS dos governos e do setor privado:
1. Garantia de 100% de Proteção e Restauração de Ecossistemas-Chave: Manguezais, recifes de corais, restingas e pradarias marinhas devem ser priorizados como infraestrutura natural essencial para o sequestro de carbono, para a defesa costeira e estabilização dos ecossistemas.
2. Implementação Plena do Marco Global 30x30: Efetivação imediata e integral do compromisso de proteger pelo menos 30% do oceano e costas até 2030 e ampliação de 100% dessas áreas até 2050, garantindo a inclusão dos Ecossistemas de Surf - Áreas de Surf Protegidas e "Surf Spots" como estratégia para consolidação, efetividade e/ou criação de Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) .
3. Reforço à Biodiversidade: Implementar e fiscalizar rigorosamente a legislação contra a pesca ilegal, não regulamentada e não reportada, protegendo grandes predadores e espécies migratórias que garantem a saúde trófica e equilíbrio do oceano.
4. Gestão Costeira Baseada na Natureza: Implementar planos de gestão costeira orientados na melhor ciência disponível, priorizando Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e Soluções Baseadas no Oceano (SbO) para combater a erosão costeira e o avanço do nível do mar e adaptação das cidades.
PILAR 2 - TRANSIÇÃO ENERGÉTICA ACELERADA
A queima de combustíveis fósseis é a principal causa da crise climática que aquece e acidifica o oceano.
COBRAMOS, portanto:
1. Fim imediato e incondicional dos Subsídios Fósseis: Redirecionamento integral desses recursos para a transição energética justa, pesquisa oceânica e tecnologias de regeneração, mitigação e adaptação.
2. Fim da Exploração Fóssil no Mar: Banir imediata e Globalmente a prospecção, perfuração e exploração de petróleo e gás em ambientes marinhos e costeiros.
3. Revisão e elevação das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs): Exigimos que os líderes mundiais elevem substancialmente as NDCs, ajustando-as com metas específicas e ambiciosas.
PILAR 3 - JUSTIÇA CLIMÁTICA, SABERES ANCESTRAIS E POVOS DO MAR
VALORIZAÇÃO do conhecimento ancestral como bússola para a regeneração planetária.
1. Reconhecimento da Liderança: Garantir a soberania territorial e o respeito inegociável aos direitos humanos e ao conhecimento tradicional dos povos originários, pescadores artesanais e comunidades costeiras, essenciais na luta pela conservação e adaptação climática.
2. Integração da Justiça Azul: Integrar o conceito de Justiça Azul em todas as políticas ambientais, reconhecendo os impactos desproporcionais da crise climática e o racismo ambiental sobre os povos do mar e outros refugiados climáticos, e garantindo reparação e adaptação adequadas.
3. Participação Plena: Garantir a participação ativa, plural, equitativa, livre, prévia e informada dos povos do mar em todas as decisões sobre clima, oceano, floresta e biodiversidade.
O NOSSO COMPROMISSO: A FORÇA REGENERATIVA DA COMUNIDADE SURF
Nós, surfistas e amantes do Oceano, não somos apenas testemunhas da crise ambiental, somos agentes de transformação e comprometemo-nos a:
- Educar e Mobilizar: Encorajar a nossa comunidade global para educar e promover a cultura oceânica e mobilizar milhões de pessoas sobre a urgência climática e oceânica.
- Inovação e Circularidade: Incentivar e priorizar a economia circular na indústria poluente do surf, exigindo transparência na cadeia de suprimentos e investindo em materiais de baixa pegada de carbono para equipamentos e acessórios.
- Monitoramento e Ciência Cidadã: Apoiar e expandir redes de Ciência Cidadã, transformando surfistas em monitores costeiros ativos (água, resíduos sólidos, erosão), gerando dados abertos para influenciar políticas públicas, gerar incidências intergovernamentais e ampliar o conhecimento público sobre os limites da natureza.
A MARÉ ESTÁ VIRANDO: CORAGEM POLÍTICA AGORA!
O surf é a arte de deslizar em sincronia com a natureza. Mas esse deslize está sendo interrompido pela crise ambiental. Nosso silêncio é também pode ser interpretado como cumplicidade. Não permitiremos que o Oceano - nosso lar, siga em agonia. Comprometam-se e ajam!
Exigimos que os líderes mundiais demonstrem a mesma coragem política, ética e planetária que os surfistas demonstram ao encarar e surfar ondas gigantes: ousadia para assumir todo e qualquer risco para a transformação e responsabilidade para proteger a vida. A janela de oportunidades está se fechando. Que na COP30, o mundo ouça o mar: a maré tem que mudar.
QUE A ONDA DA ESPERANÇA NÃO FECHE
Que as exigências apresentadas por nós neste Manifesto, nesta COP30, ecoem como uma nova onda de esperança e que o surf siga sendo esta ponte entre cultura, natureza e futuro. E no balanço do mar e vai e vem das marés, a humanidade reencontre o seu próprio equilíbrio.
Assinado: Comunidade Brasileira do Surf pelo Clima